Como alcançar o equilíbrio e a mente sadia em momentos de reclusão

04 de Maio de 2020, 11h11

De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2019 havia 18,6 milhões de pessoas sofrendo de ansiedade no Brasil, o que garantia ao nosso país o título de nação “mais ansiosa do mundo”. E nesse período de isolamento social, devido à pandemia de Coronavírus, é provável que a quantidade de indivíduos afetados pela doença tenha crescido ainda mais.

Para esclarecer dúvidas e apontar alternativas para não ficar paralisado por conta da ansiedade, durante o período da quarentena imposta para evitar a disseminação da Covid-19, ou por outras crises que possam levar ao isolamento social, obrigatório ou voluntário, o Newton Carreiras entrevistou o professor do curso de Psicologia da Newton, Saulo Rodrigues de Moraes. O docente é Mestre e Especialista em Psicologia pela UFMG. Na Newton, é docente das disciplinas Psicologia Social, Psicologia e Políticas Públicas, Intervenções Psicossociológicas. Atua ainda na Supervisão de Estágio em Intervenção Psicossociológica e Gestão de Pessoas.

Newton Carreiras: Nesse momento de quarentena, que sinais podemos observar para perceber que a ansiedade está atrapalhando?

Saulo Rodrigues de Moraes: Trata-se de uma experiência inédita e radical em relação à mudança da rotina, estabelecendo conflitos e dilemas que colocam a ansiedade como algo esperado - em alguma medida. Ainda assim, há pessoas mais impactadas que outras, pois a avaliação que cada um faz da situação estressante vivida é mais relevante que a gravidade do evento em si. A melhor “régua” nessa situação é a comparação com as ansiedades cotidianas anteriores ao distanciamento social, pois certa dose de estresse é parte da vida, nos protege de perigos e nos coloca em atividade. A ocorrência de sensações fugazes de falta de horizonte e a percepção de um inimigo externo, que nos rodeia e sobre o qual não temos muitas informações, é algo que atinge um número grande de pessoas. Caso se torne paralisante, com sintomas como taquicardia, sudorese, tremores e náuseas, com prejuízo da vida social e ocupacional, é importante buscar atendimento por profissional de saúde mental.

NC: Que atitudes, ou mudanças de hábito, são recomendáveis para evitar o estresse e o aumento da ansiedade?

SRM: É curioso que fiquemos ansiosos diante da oportunidade de maior convivência familiar e com mais tempo para cada um olhar para si próprio. Essa reflexão já ajuda a encaminhar estratégias importantes, como a análise do estilo de vida anterior, os cuidados com o corpo, a atenção à própria respiração, o exercício de escutar o outro. Resgatar, a partir do relato oral dos mais experientes, as histórias familiares e da vida no trabalho, é uma atividade muito rica e com grande potencial de reflexão e intervenção. Recomenda-se prudência na imersão em maratonas de filmes e séries e alternar essa atividade com a leitura de livros e desenvolvimento de projetos pausados por falta de tempo - que sejam possíveis de executar em casa. É fundamental se apegar ao fato de que, embora traga impactos que mudarão em certa medida nosso modo de vida, isso tudo é passageiro - basta olhar para a experiência de países que tiveram seu pico de contaminação antes do Brasil e que, aos poucos, estão flexibilizando o distanciamento social.

NC: Como se manter informado, de forma saudável, neste momento de intensa cobertura jornalística da pandemia?

SRM: O excesso de informações tende a fazer mal. Quando tudo começou, na segunda metade do mês de março, era esperado que buscássemos informações em abundância, mas depois aconteceria a diminuição progressiva dessa voracidade. Parece que a tendência à diminuição da busca às fontes jornalísticas não acontece no uso de redes sociais, que são comumente portadoras de notícias que mais desinformam (fake news e dificuldades de se fazer uma filtragem confiável). O acesso às publicações de instituições e/ou organismos científicos é um ótima alternativa, pois canais de televisão tradicionais podem apresentar vieses que espetacularizam ou relativizam as informações sobre a pandemia.

NC: Como a família pode contribuir para manter o equilíbrio neste período de quarentena? É necessário ter uma atenção especial com crianças e idosos?

SRM: Dois desafios imensos: manter crianças dentro de casa por um longo período e promover atenção qualificada aos idosos. As dicas relacionadas ao exercício da escuta e ao resgate das histórias familiares (arvore genealógica, a história do trabalho, costumes) podem ser interessantes no trato com os idosos. Para as crianças, há que se buscar um repertório de atividades que seja amplo, diverso e adaptado às condições físicas da moradia. O resgate das atividades lúdicas que se perderam nas gerações, os jogos físicos ou em versão eletrônica que promovam interação - que não será simples se os adultos estiverem trabalhando em home office ou com excesso das demais tarefas domésticas. O que não significa a transformação em ansiosos recreadores full time para cobrir espaços em que a criança também pode e deve agir sozinha ou com outra criança do meio familiar. Em relação às eventuais apreensões infantis sobre a pandemia, recomenda-se que se busquem a versão e os sentimentos da criança, o que pode ser feito a partir de verbalização, desenhos e dramatizações.

NC: Que estratégias são indicadas para quem mora sozinho?

SRM: Frente às exigências desse momento, o acesso remoto pela internet é uma saída muito eficiente, especialmente pela facilidade em se utilizar chamadas de vídeo. Há familiares e amigos que moram distantes que tem se falado até mais nesse período.

NC: Há alguma outra questão relevante que queira destacar?

SRM: Quero destacar a importância do trabalho enquanto construção de subjetividade. Esse é um bom momento para refletirmos sobre nossas escolhas profissionais e as repercussões positivas e negativas das nossas atividades de trabalho. Abordar, enfim, a necessidade do fortalecimento do Sistema Único de Saúde – SUS, do reconhecimento e valorização das profissões da área de saúde que são alvos de narrativas que tentam esvaziar o lugar do saber científico na construção de melhores formas de condução da vida.

E você, que que estratégias e ações está utizando para manter o equilíbrio e a mente sadia nesse momento de reclusão? Compartilhe com a gente!

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